Epígrafe*

Murmúrio de água na clepsidra** gotejante,

Lentas gotas de som no relógio da torre,

Fio de areia na ampulheta vigilante,

Leve sombra azulando a pedra do quadrante***

Assim se escoa a hora, assim se vive e morre (...)

Homem, que fazes tu? Para que tanta lida,

Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?

Procuremos somente a Beleza, que a vida

É um punhado infantil de areia ressequida,

Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa (...)

(Eugênio de Castro. Antologia pessoal da poesia portuguesa)

(*) Epígrafe: inscrição colocada no ponto mais alto; tema.

(**) Clepsidra: relógio de água.

(***) Pedra do quadrante: parte superior de um relógio de sol.

A imagem contida em “lentas gotas de som” (verso 2) é retomada na segunda estrofe por meio da expressão: